Indicação de leitura: Vocação para o mal, Robert Galbraith

GALBRAITH, Robert. Vocação para o mal. –1ªed – Rio de Janeiro: Rocco, 2016.


Comentado por Egberto Vital



“Vocação para o mal” é o melhor livro da, então, trilogia de Robert Galbraith - que conta ainda com os títulos O Chamado do Cuco e O Bicho-da-seda. É perceptível a evolução na narrativa galbraithiana: as personagens estão mais interessantes e redondas, os conflitos existenciais destas acabam por integrar o suspense e os eventos relacionados a uma série de crimes sui generis, que se desenrolam com maestria ao longo das páginas angustiantes e dos capítulos surpreendentes, uma obra cheia de momentos de tensão e reviravoltas.

Já das primeiras páginas a nova aventura de Cormoran Strike prende o leitor em uma trama muito bem costurada e bem enredada. O foco dado a Robin Ellakotte oxigenou a narrativa e fez com que a personagem crescesse na história e se desenvolvesse melhor, trazendo novas possibilidades para futuras sequências, a independência e insubordinação da parceira de Strike tornou a história mais dinâmica e instigante, visto que o leitor se depara agora com várias linhas de investigação, que livraram a narrativa de uma possível previsibilidade, que acontece de forma muito latente em O Chamado do Cuco.

Muito mais sombrio e sanguinolento – temos muita morte, muito sangue e muitos pedaços de corpos, manchando de vermelho as páginas do livro –, “Vocação para o mal” interdialoga com narrativas como as de Agatha Christie e Sir Conan Doylle, coisas como “Assassinato no Expresso Oriente” ou “O cão dos Baskerville” poderiam ser uma boa referência nesse caso.

 

Temos um assassino astuto que pouco deixa pistas de sua identidade, exceto ao lidar com os fantasmas da infância e adolescência do detetive herói de guerra, coisa que é feita de forma proposital, e muito bem engendrada, pelo psicopata que agora perturba o sono do detetive ao ameaçar a sua linda e amável parceira que acabara de receber uma perna humana como correspondência.

 

A atmosfera sombria do romance remete o leitor a uma/um paisagem/ambiente semelhantes a narrativas como Os Assassinatos da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, respeitas as devidas proporções, é claro, poderíamos dizer que resgata o ar funesto e assustador de obras como O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson.  Todos esses elementos podem ter servido de plano de fundo para construção de um assassino que não chega ser um “Jack, o estripador”, mas que age com semelhante genialidade e precisão cirúrgica, desde a escolha das vítimas à condução dos crimes, culminando no astuto plano de incriminar Srtike pelos eventos ocorridos em série, motivados por uma mente criminosamente doentia e perturbada, bem como pelo rancor e animosidade que o assassino ainda cultivava pelo gigante Cormoran.

 


Com uma edição muito bem trabalhada pela editora Rocco, “Vocação para o mal” é um romance que compre muito bem o que pretende, não é uma obra fabulosa do ponto estético – o mesmo pode ser dito dos dois livros anteriores da série –, nem creio que essa seja a pretensão do autor, que não está preocupado em criar uma obra prima. No entanto, temos uma obra que cumpre muito bem a intenção de ser uma leitura de entretenimento, um texto muito bom de ser lido, instigante, angustiante e surpreendente, que atende muito bem às expectativas do leitor que gosta de romances policiais, histórias de mistério e suspense, um texto que eu indicaria, sem dúvidas, aos meus alunos, por se tratar de uma ótima leitura para leitores iniciantes. 


Em 21 de maio de 2016

Modificar-se

Quero que tudo vire moda
Que ouvir Legião Urbana vire moda
Que protestar vire moda
Que mulheres não-padrão sejam moda
Que a poesia seja moda
Que Pink Floyd vire moda
E toque nas rádios da moda
Que a proteção animal seja moda
E que dite moda na São Paulo Fashion Week
Que o que velho volte a ser moda
E modifique-se como novo
Que seja moda a moda das ruas
A moda dos bêbados
A moda dos clowns de Silvino Olavo
Que leminski-se a moda
Que modize-se Lenine
Caetano e Gil
Vamos ritaleezar a moda
Nordestinizar São Paulo
E samplear o Nordeste
Vamos fazer tudo virar moda
Modifiquemos

Minha mãe me ensinou a ouvir Elis Regina
O meu pai, Roupa Nova
Eu busquei por Sandy e Junior
Thiago me apresentou Ana Carolina

Hoje, vejo o funk carioca ganhar o mundo
Se tornar ambíguo e antitético
Viaja entre o feminismo, criminalidade e ostentação

O forró das festas de São João
Na voz de Elba, Amazan e Marinês
Foi invadido pelas guitarras
Da estilização do Sertão
Transformando nossa música
Em um emaranhado de ilusão

O cantador que cantava a lua
Hoje é rotulado de brega
E a sanfona do mestre Lua, deu lugar ao rock’n’roll

Sobrevivi,
Estou aqui contando a história
De um Sertão cosmopolita

Esquecido pela Nação.

Egberto Vital
13 de maio de 2014
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